domingo, 29 de julho de 2012

Saudades do futuro.



A memória de tempos que não vivi, ao lado de alguém que não sei se existe no mundo real.

Muitos poetas falam da saudade do que não se viveu. Saudade até de tempos que não existiram. Mas como se pode ter saudade daquilo que não foi concretizado? Como posso sentir falta de algo que não foi real? Creio que as nossas vidas transcendem a estas frágeis e curtas noções. Creio que podemos sentir saudade da vida inteira que poderia ter sido e não foi.
Pode parecer confuso o que digo, pode parecer uma tentativa frustrada de costurar ideias desconexas, mas meu caro leitor olhe por cima do muro que o trava e viaje um pouco neste meu raciocínio peculiar... Nossa ideia de tempo é frágil e limitada as nossas necessidades básicas diárias, achamos que o tempo é apenas aquilo que nosso relógio marca, esquecemos que o tempo também é protagonista de nossas vidas, um protagonista que nós criamos. Se o tempo é um instante o qual ousamos descrever, significa que ele tem sua abstração. Ele não pode ser limitado àquilo que parece ser. O tempo está associado a momentos que vivemos.
Se o momento que de fato vivemos é tudo aquilo que mexe com nossas emoções e com o que há de mais escondido na alma, nossos sonhos também são momentos que vivemos. Porém, quando sonhamos, estamos numa outra dimensão que não sabemos descrever ao certo, mas que às vezes chamamos de limbo. Se viver é a realidade que nos cerca e que somos capazes de sentir, nosso limbo pode sim ser a nossa realidade. Quantas vezes sonhamos com tamanha força que ao acordar queremos voltar a dormir? Por vezes os sonhos nos consolam, são capazes de nos fazer felizes muito mais que estar acordado. Quando se trata de sonhos tudo é mais abstrato.
Meu confuso leitor, ente tantos conceitos de tempo, sonho, realidade, saudades de tudo isto, e olhando para as primeiras linhas deste texto tentando recapitular o que foi dito, você deve estar perguntando também se posso ter saudades do futuro. Eu afirmo que sim. Se o nosso futuro é um sonho do passado, daqueles que escondemos bem de todo mundo, se este sonho por algum motivo deixa de ser sonhado ou se torna impossível de realizar seja por qual for o motivo, por vezes dá saudade de sonhá-lo. Sinto falta da sensação de bem estar que ele me causava, aqueles sonhos seriam o meu futuro um dia, e se os meus sentimentos são a minha realidade, se a minha realidade é algo tão abstrato quanto minha própria noção de tempo, me perco nas sensações de passado e futuro e posso sim ter saudades do futuro que um dia quis para mim!
Passado, presente e futuro se misturam em nossa mente... Mas ainda assim, como podemos sonhar com o futuro? Os franceses denominam esta sensação de ‘déjà vu’, que em tradução livre significa ‘já visto’. Quando vivemos algo e sentimos a certeza de já ter visto aquela cena, quando conhecemos alguém neste exato momento e temos a sensação de já conhecê-lo, quando visitamos um lugar completamente novo e sentimos que já tínhamos estado lá, todas estas sensações que experimentamos nos deixam perdidos em relação a nossa frágil noção de tempo. O futuro que estava guardado no passado? Nada mais óbvio, afinal o futuro é o nosso reflexo do passado.
                Não seja simplório ao resumir tudo... Não me diga que não pode se ter saudades, por exemplo, de um tênis que não se comprou! Posso sim ter saudades da sensação feliz que a IDEIA de comprar aquele tênis me causou e ele ser meu em devaneio. Posso tê-lo desejado ao ponto de em outra dimensão ele ter sido meu. A realidade não é apenas aquilo que é mostrado na nossa frente todos os dias, a nossa realidade individual é também tudo o que sentimos, sonhamos, desejamos, experimentamos e algumas vezes realizamos. O conceito de realidade quase sempre sai da boca amargurada dos que não sonham. Não se limite a achar que a realidade é apenas o palpável, o visto. Em um mundo de máscaras sociais nunca sabemos o que é realidade ao certo.
                Passado, presente e futuro quase sempre se misturam. Sonho e realidade quase sempre é a mesma coisa. As horas estão mais soltas que o vento. O que nos falta é liberdade para entender. E agora o que me resta é saudade do meu futuro que anda perdido em algum lugar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vingando-se da Morte.


                A melhor forma de vingar-se da morte é ter a melhor vida possível. Nada podemos fazer para fugir da indesejada das gentes, mesmo que completemos 100 primaveras, um dia partiremos deste mundo, voltaremos ao mistério de nossa existência, o tempo fará com que fiquemos no ontem. É uma verdade cruel a nós humanos sabermos que um dia ninguém saberá das nossas dores, angústias, felicidades e conquistas do hoje.
Mas afinal, qual o sentido de tudo isto? Qual o sentido desta caminhada rumo ao desconhecido? O que podemos fazer para que tudo valha a pena? O sentido deste caminho é o rumo que damos a ele. O sentido das nossas vidas é aquele que nos faz feliz. O que nos resta a fazer é vivermos todos os momentos que nos fazem bem, nos jogarmos na vida sem contar com o amanhã, afinal não sabemos o que nos reserva o amanhã, talvez o futuro seja apenas o reflexo do que é construído no agora. A nossa fragilidade humana cria expectativas de um amanhã para que nos limitemos, possamos nos manter calmos e conformados, mas meu esperançoso leitor, se nós formos capazes de olhar por cima do muro que nos trava, veremos, não existe nada além do reflexo do agora.
                Por vezes tentamos viver o passado, noutras tentamos viver o futuro, nos perdemos meio as nossas expectativas e tentamos viver todos os dias de uma só vez. Mas não conseguimos. Um dia de cada vez. Só assim aguentamos carregar toda a nossa bagagem, toda a história da nossa existência. Dosar o tempo não é tarefa fácil. Aliás, o que é o tempo? O tempo é a tentativa frustrada do ser humano controlar o amanhã. O tempo é a tentativa sem sucesso de cada um de nós sabermos o que nos reserva a página seguinte. O tempo é a ilusão que criamos a cerca do amanhã. Os dias, o tempo, o futuro, todos são segredos criados por nós, segredos que misteriosamente nos acalmam.
                Solitário leitor, se me perguntares por Deus, se você argumentar dizendo que Deus tem um plano especial para as nossas vidas, eu retruco respondendo com algumas perguntas: E as nossas escolhas, também são planos de Deus? Somos fantoches do abstrato criador de tudo? Não seria egocentrismo achar que com tantos problemas no mundo, tantas doenças incuráveis, tanto caos sobre a terra, Deus se importaria com as bobagens que nos afligem a cada 5 minutos? Não acho que Deus em sua infinita bondade seria tão passivo para assistir tudo e nada fazer, assim como não posso crer que Deus seria um carrasco de castigar nossos pequenos delitos diários. Não posso crer que Deus seria o reflexo semelhante de tamanha imperfeição humana. Não posso crer que nós humanos limitados seríamos capazes de entender Deus. Mas ainda assim creio que a ideia Deus nos faz bem. É muito cruel imaginar que estamos sozinhos, que nada faz sentido, que nada podemos fazer contra a morte, que somos apenas resultado da evolução de outros animais.
                Meio a tantos mistérios existenciais, meio a tantas dores sem motivo, meio a tantas ilusões que nos consolam, seguimos nossas vidas, carregamos a beleza desta chance maravilhosa que temos para fazermos o melhor pelo semelhante e por nós mesmos. Carregamos a chance de sermos felizes todos os dias. E a nossa felicidade, a nossa cura, a nossa paz interior só depende do que construímos dia após dia.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Saudade e seus Reflexos.


                A saudade é o reflexo dos momentos maravilhosos que vivemos. Por vezes ela é o nosso bálsamo, outras ela é a nossa cruz. Sentimos saudade de um tempo, de uma pessoa, de uma música, de um cheiro. Sentimos saudade de um abraço apertado, de um aperto de mão firme, de um sorriso sincero. Sentimos saudade de conversas bobas, de piadas, da voz. E essa saudade nos consola por revivermos aqueles momentos ao lembrar, mas também nos angustia por não podermos vivê-los novamente.
                O que nos resta quando queremos olhar, sentir, conversar, beijar, abraçar alguém outra vez e já não é possível? O que fazer com esta angústia infinita que trava o peito e deixa nossa alma amarga? É uma sensação desesperadora e sufocante. Nada que se diga ou faça adianta. Nada diminui a dor de não ter mais alguém perto de nós, do tempo ter deixado quem amamos no ontem, de estarmos morando em mundos diferentes. A religião nos ensina que sempre teremos quem amamos por perto, que alguém ao encantar-se vem morar em nosso coração e além de nós, quem amamos morará na luz divina, na força criadora do universo, no recomeço de nossa existência. Mas o que resta a nós que ficamos? As lembranças, os ensinamentos, as fotografias, a saudade, sempre a saudade.
                Saudade que nos consome a cada memória. Saudade que nos consola com os risos que foram divididos. Quando eu me lembro dos momentos que vivi ao lado da minha avó penso em tudo que construímos juntas, em tudo que ela me ensinou. Lembro-me das tardes sentadas juntas conversando, lembro-me do amor mutuo que tínhamos, lembro-me dos risos, dos passeios, de dormirmos juntas, de ter sua proteção, de ter a honra de tê-la como avó. Todo este tempo ao lado dela foi maravilhoso. Sinto como se ela estivesse agora sempre ao meu lado, mas esta saudade é sufocante.
                O que me consola, e o que eu espero que console a minha mãe, meu tio, os outros parentes e aqueles que gostavam de sua companhia é o fato de saber que ela foi muito feliz durante toda a vida. Fez o que quis, disse o que quis, recebeu infinitamente o nosso amor, e legou a nós sua felicidade. Ela carregava no bolso sempre uma piada pronta, carregava sempre um sorriso camarada, e trazia sempre aquela força de sertaneja mais forte que a vida e a morte. Força que precisamos ter agora para seguir em frente e fazer o melhor dentro das possibilidades que se apresentem. Força de entender que um dia nos reencontraremos, força de aceitar que apesar da distância que nos separa agora nada irá apagar o que foi vivido ao seu lado.
                Espero minha avó que eu tenha herdado sua força para superar esta saudade sufocante, espero que eu tenha herdado a sua felicidade constante, o seu bom humor para que neste momento de tempestade eu seja capaz de fazer florir paz no coração de nós que ficamos do lado de cá da margem da vida, espero que apesar da despedida a sua alegria de viver nos console. No mais, repito suas últimas palavras para mim, até breve minha querida! 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Incerteza da Vida.



                A vida passa muito rápido. Como num piscar de olhos partimos para um mundo desconhecido que está além da nossa compreensão. Gastamos tanto tempo para entender isto, entender a nossa falta de controle sobre o amanhã que por vezes perdemos o foco e deixamos de aproveitar o que é mais importante: o hoje. O amanhã é uma ilusão. O amanhã é um consolo para não vivermos atormentados por não conseguir fazer tudo que gostaríamos no hoje. Permitimo-nos acreditar no amanhã porque precisamos ter a esperança que algum dia será como nós realmente desejamos.
Faça um teste caro leitor solitário, tente programar hoje todo o seu dia seguinte com riqueza de detalhes, seja bem descritivo. O outro dia te provará o que digo agora, nunca, nada na vida é como queremos. Não temos o controle de tudo. Não sabemos de nada diante deste enorme espetáculo da vida. A nossa única certeza é o agora. Pode parecer extremado todas estas palavras desconexas, mas elas carregam a racionalidade de tristes experiências. A maior frustração humana é não saber de si próprio. O outro parece sempre saber mais de nós que nós mesmos. O outro sempre tem mais poder sobre nós e assim tecemos uma rede de conexões que lembram o efeito borboleta.
O outro assiste o nosso nascimento quando não sabemos nada do mundo, o outro nos leva flores ao túmulo quando já não vemos, o outro sabe o que fará com o amor que damos a ele, o outro nos aprova ou reprova na sociedade, o outro nos julga, nos calunia, nos oprime. O outro nos faz feliz por instantes ou pelo resto da vida, o outro, sempre o outro. Se tentarmos nos livrar do outro não sobreviveremos um dia sequer. Afinal ninguém é capaz de sobreviver sozinho por muito tempo. Estamos entregues ao outro, a vida, ao acaso. Dentro desta limitação humana reagimos criando a esperança de que nada acaba aqui. Criamos a religião, criamos um deus a nossa semelhança, criamos o amanhã, criamos o tempo, criamos tudo que alivia esta angústia do nada, de nos sentirmos nada, de vivermos para nada.
Norteamos nossas vidas e fazemos dela a mais bela criação do mundo. Afinal, não podemos desperdiçar a chance que temos de criar certezas meio a tanta incerteza. O que levamos da vida é tudo que construímos enquanto estamos vivos. O que levamos desta passagem rumo a incerteza de algo além, é o amor que cultivamos, os momentos vividos ao lado de quem amamos, o respeito, a solidariedade, os risos, as festas, as viagens. O que levamos da vida é a felicidade que construímos na liberdade que temos. É preciso passar adiante alegria. É preciso construir amor. Deixar ao outro o nosso sorriso sempre. Mesmo nos momentos de dor. Sorrir mesmo quando nada é como queremos afinal estamos aqui para lutar e construir a nossa felicidade.
Não sabemos do dia seguinte. O amanhã é o maior mistério da vida de todos nós. O que nos resta é o hoje. O hoje determina a nossas vidas com uma intensidade poderosa e escorregadia as nossas mãos. E se somos assim tão impotentes precisamos da consciência do que estamos construindo. Precisamos legar o respeito, a amizade, a ternura, o sorriso, a felicidade. Pois será este o consolo para os que amamos no momento de nossa partida, saber que fomos felizes no hoje que vivemos.    

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Hoje toca frevo no céu.


                Hoje tem uma festa arretada no céu. A música que toca é um frevo dos bons. Os anjos ficam todos de pé para celebrarem e receberem a dona da festa...
E com grande alegria saúdam:
- Dona Leide, a senhora chegou!
E ela responde:
- Oxente! Que lugar é esse?
-Esse lugar é a mistura de todos os lugares onde a senhora foi feliz!
-Mas Homi, que história é essa? Ela retruca.
O anjo diz:
- Olhe aqui um pedacinho de Palmares, olhe Recife. Mais ali Fortaleza, São José do Ribamar, São Luis, Teresina, e olhe, Campo Maior. Mas Dona Leide tem um pedaço também de todos os lugares que a senhora quis conhecer e não deu tempo...
- Mas veja só! Ali é o Lemos! Ali são meus irmãos, pai, mãe, até vó Rosa, que saudade que eu estava deles.
- Pois é Dona Leide, está todo mundo aqui!
- Homi do céu! Eu não tô sentindo mais nenhuma dor, veja só! Consigo até dançar esse frevo! Simbóóra oooooi! Oxente, mas eu ainda tô vendo gente chorar, largue de frescura homi! Eu vou agora para essa grande viagem, avie, que eu tenho mais o que fazer!
- Pois  vamos dona Leide, que aqui é só alegria...

...
                E desta pernambucana arretada sempre haverá saudade. Pois ela foi a melhor bisavó, a melhor avó, a melhor mãe e a melhor companhia que todos nós poderíamos ter. Tudo ao seu lado era riso, frevo e festa. E agora que ela encantou-se, veio morar para sempre em nosso coração.
                Muito obrigada pela honra de fazer parte da sua vida. Nós que sempre te amamos infinitamente, te daremos a eternidade em nossas memórias.
Saudade vó.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Devaneios ou Bobagens.



É isto que você faz com a sua única chance neste jogo? Certa vez me vi pensando isto sobre a vida. E quando penso na vida, penso também em religião, amor, sexo, amizades, tantas outras coisas se conectam a pergunta que me fiz. E já que estou divagando em pensamentos, então continuo o meu passeio mental, levando você também, meu querido e solitário leitor.
                Acredito em coisas tolas. Acredito que se eu tenho uma chance de melhorar tudo ao redor não vou dispensá-la. Se todos nós teremos o mesmo fim não vou tratar ninguém diferente por ele ter nascido em outra classe social, de outra cor, muito menos por ele ter mais ou menos idade que eu, o respeito é o mesmo para todos. Se eu tenho uma só chance neste jogo de vida que sempre irá acabar na morte, irei me permitir ser feliz, fazer aquilo que achar justo e a única lei que prevalece é não prejudicar o outro. Permito-me ser livre em todo segundo que eu for viva. É exatamente neste ponto que entra a minha aversão a ter uma religião... Qual a relação? Eu explico. Não me permito aceitar que o meu deus é melhor que o seu deus, que deus é diferente para cada grupo, que eu segregaria alguém ou diria a este alguém que ele está errado em sua fé. Não me permito que alguém igual a mim, me diga o que deus acha melhor para minha vida, afinal se somos todos iguais, se todos nós temos pecados, porque deus não sussurraria ao meu ouvido? Não me permito comprar coisas ‘sagradas’ e rememorar a época das indulgências... Não me permito ser presa em minha fé.
                Não consigo aceitar a ideia de uma religião ditar a quem devo amar ou como devo amar ou o que devo fazer dentro de todas as possibilidades deste amor, seja amor Eros ou Ágape. Não consigo aceitar as amarras sufocantes e repressoras desta ideia sequer. Não aceito que uma religião me diga a quem devo ser simpático ou confiar. Que me ditem com quem devo falar em tom amigável, afinal, se sou amiga ou simpática a alguém é porque aceito seus defeitos e virtudes e o resto não é da minha conta, a vida de cada um só cabe a si mesmo. Da mesma forma que o deus de cada um mora em si. Estes devaneios que precisam ser expostos aliviam uma alma atordoada que busca a paz interior. Poderia eu buscar a Deus para acalmar meus ânimos, mas prefiro buscá-lo na racionalidade dos meus pensamentos.
                É pensando em tantas coisas estranhas e ao mesmo tempo lógicas para mim, que me respondo e consolo, sim é isto que farei com a minha chance neste jogo, afinal é minha única chance. Talvez acreditar em tantas coisas atípicas seja apenas o desespero de uma alma que já não acredita no mundo, ou talvez seja só a vontade de enxergar de fato um mundo melhor algum dia. Enquanto isto, eu sigo calmamente com as minhas bobagens textuais.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sabedoria dos Bebês e dos Velhos.



Por vezes, levamos muito tempo para perceber que a vida é um ciclo e o que faz a diferença é tudo que desenvolvemos entre as duas pontas da linha da vida. Nascemos frágeis, carentes de cuidado e proteção, admirados do mundo que nos cerca, sensíveis a tudo ao redor. E quando estamos velhos, somos da mesma forma. Necessitamos de cuidados e compreensão, somos sensíveis ao mundo que nos rodeia e temos uma admiração infinita por tudo que foi vivido, e esta admiração sempre vem acompanhada da saudade dos dias que se passaram.
                É lamentável que as pessoas nem sempre enxerguem isto. Acham que aos bebês é necessário ensinar e educar, e aos velhos repreender, pois os últimos já viveram demais e deveriam saber se cuidar sozinhos. Meu caro, minha cara, não é assim que as coisas funcionam! A nossa consciência, o mundo obscuro da nossa mente tem muitos labirintos, alguma vez podemos nos perder neles. Agradeça muito a força criadora do universo se você viver muito e nunca entrar nessa situação especial. Ou se você relutar em aceitar isto imagine comigo um bebê que de repente olha ao seu redor e não reconhece nada, busca pela sua mãe e ela não está perto (entendamos como mãe a base e o alicerce de segurança criado por este bebê), com certeza, este bebê irá chorar. Quando estamos velhos agimos da mesma forma. Gostamos de nos sentir seguros, em nosso ‘ninho’.
                As semelhanças são muitas, infinitas, mas meu caro leitor, o que mais dói são as diferenças de como muitos tratam as duas pontas da vida. Ou pior, o descaso que se faz com as duas pontas da vida. Não é raro se ver cenas onde as pessoas não tem paciência, tampouco compreensão com as fases mais curiosas de uma existência. Não é raro ver cenas de mães que não zelam por seus filhos, mães sem sensibilidade de enxergam que bebês têm vontades, personalidade, carências, necessidades e atitudes próprias. Assim como também não é raro ver cenas de pessoas maltratando ou abandonando velhos por acharem que eles já não são necessários para a vida. Pessoas cegas que não percebem a sabedoria e a beleza dos extremos.
                Um bebê olha todas as pessoas sem distinções de cor, classe social, idade, olha com a pureza de quem só quer absorver o melhor de cada um, sem classificações que colocamos ao longo da vida, criando uma redoma suja. Um velho olha a todos com indiferença de tratamento, já não importa classificar, excluir, segregar, pois eles enxergam que todos nós teremos o mesmo fim. Velhos estão prestes a encarar um mundo novo que nenhum de nós sabe como é e bebês acabaram de embarcar neste mundo novo que eles não faziam ideia de como seria.
                Muitos passam a vida inteira achando que sempre haverá um amanhã jovem e belo, maltratam quem está a sua volta, segregam, se sentem inatingíveis, suas prioridades são facilmente compráveis, vivem dias e dias buscando propósitos vazios, no alvoroço de conquistar objetivos tão fúteis, tão vazios que chega a ser muito triste entender isto. É óbvio caro leitor, que os bens materiais são fundamentais para a sobrevivência neste mundo, mas isso não deveria se tornar o seu único propósito na vida. Todo ciclo tem começo, meio e fim, e como já foi dito a vida é um ciclo, ela terá fim.
                 Se pararmos pra pensar, o que é a vida afinal? Uma corrida cega rumo ao nada? É isto que você faz com a sua única chance neste jogo? O que se leva da vida é a liberdade de ter vivido o que se quis, isto no final é que compensará tudo. Ter amado a quem se quis, ter cuidado de quem nos fez bem, ter ensinado a quem nos odeia que não vale a pena perder tempo com sentimentos vazios, ter melhorado o mundo ao redor para que o nosso legado seja benéfico ao outro. O que se leva da vida é a amizade, o amor, os bons momentos, as atitudes construtoras, o que se pode fazer da vida é ser um pouco de energia construtora para nós mesmos e para o outro.  
                No mais, tudo se torna banal. A pressa de conquistar o material nos cega para perceber que viveremos um mundo espiritual quando partirmos. O que restará será somente a essência das nossas atitudes. Os bebês e os velhos tem esse desprendimento. Os bebês precisam de colo, os velhos de atenção. Talvez nossa sociedade viva tão amarga por não aprender isto com seus bebês e seus velhos. Talvez seja este o segredo da vida, entender o outro, se colocar na situação do outro, para que possamos nos sentir felizes com nós mesmos. Ou talvez isto seja só um devaneio de algum labirinto da minha mente. Na dúvida, tento aproveitar o caminho, antes que ele chegue ao fim e torço muito para que meu filho também possa enxergar isto um dia.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Resposta a um Jovem Burguês


                Depois de divagações e devaneios, inúmeras futilidades, eis que o jovem burguês pergunta o que é a vida à primeira moça que vê passar na rua, como se pudesse enxergar além de seus olhos... E ela responde:
                ‘- Bote a cara lá fora onde o sol é cruel e turvo como a realidade. Venha conhecer o outro lado. Encare que o mundo não é bom nem belo. Sinta nas costas a dor de amanhecer vivo. Saiba o significado do passar dos dias para quem não tem como viver e vive. O que significa a vida para quem nem consegue sobreviver. O valor da vida para os esquecidos, marginalizados e dispensados por todos. O valor da vida para quem se vê com uma vida sem valor. Olhe pela janela. Mais que clichê, ainda há crianças morrendo de fome. Há velhos que carregam a vida [o peso da vida] como algo negociável. Há jovens prostituindo suas manhãs em troca de pão e droga, buscando a ilusão da esperança. Há jovens matando e roubando em busca de preencher o vazio de seus dias. Ainda assim eles insistem em viver, idiotas! Lá fora ainda existem pessoas que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Não, não pode. Meu caro, a vida e o mundo são a mesma coisa. O mundo toma forma lentamente a cada escolha da vida de alguém. O meu mundo e o seu mundo são diferentes. Ainda assim estamos aqui. A vida que parece ser boa sempre carrega em si uma mácula qualquer. E a vida que parece ser horrenda carrega em si uma esperança infinita. Para o mundo ser melhor todos teríamos de sofrer e neste mundo existem mais pessoas iguais a você que não sabem sofrer ao menos um instante. O que fazer então?’
                O jovem atormentado não sabia o que pensar. Por qual motivo tal estranha falava tanto dele sem ao menos o conhecer. Por que ela carregava tanta revolta e dor em seu olhar? No meio de seus pensamentos, ecos de uma consciência distante, ela prosseguia:
                ‘-Acorde! Perceba que seu mundo é supérfluo e superficial. Saiba ajudar, saiba ser livre. Não viva entre máscaras. Seja humano, viva. E se esse discurso ainda te incomoda é porque tenho razão ao te olhar assim, como um verme vestido de palhaço, cheio de picardia. Num palco de máscaras sendo fantoche do dinheiro, do ódio e do conformismo. Inutilia Truncat! Inutilia Truncat! Despertai porque isto é a vida! Eu não posso te explicar com palavras todo o resto, mas você e somente você poderá ver e assim entender. Despertai!’
                O pobre jovem burguês estava atordoado e exausto. Este encontro, este choque, este sonho fora pesado demais. Ele se sentia como se acordasse em uma vida que não era a sua. O seu dia não pode ser igual e ele ainda se perguntava o que tinha de real naquelas memórias. De repente, enquanto caminhava pela rua, tem em sua frente a mesma jovem da sua memória.  Ela o olhou e seguiu em frente.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Balé Onírico dos Amantes.


Estávamos próximos, muito próximos... Teu cheiro dançava nos meus sentidos, dançava o nosso ritmo. As lembranças vinham na memória como um filme bom. Todos os beijos, abraços, amores, os risos e gestos montavam uma redoma de cumplicidade. Estávamos próximos. Sentir tua pele, teu calor... Sentir que tudo vale a pena para estar ao teu lado. De repente minha pele e a tua não conseguem se distanciar, precisam sentir o calor que vem da outra.
Estamos envolvidos em que? Qual sentimento nos enlaça? Qual energia nos faz próximos? As cores, as formas, o cheiro, o querer... Minha pele passeia na tua, tuas mãos descobrem o quanto estou perto, nossos cheiros se tornam uma só essência, nossos olhos em admiração plena buscando sempre um ao outro e propondo que nossas lembranças se reavivem.  Tua pele, minha perdição. Teu cheiro embriagador, minha fonte de ternura. De repente, a música que só nós dois ouvimos começa a tocar... Seu ritmo estonteante amarra nossas almas, nos mistura, faz-nos juntos.
Os beijos se perdem no nosso corpo... Esquecemos o mundo a nossa volta, as pessoas, os lugares. Esquecemos circunstancias que nos deixam distantes e queremos estar grudados. Os beijos que esquentam, acalmam, despertam. Passaram-se horas? Dias? Há quanto tempo estamos ali? Saímos pela noite buscando um lugar nosso, uma vida nossa. Mas o ritmo incessante daquela sinfonia entre nós não para. E os beijos, carinhos e prazer trocados só pedem para se repetir.
Quantos princípios nos separam se sempre desejamos o mesmo fim? Esquecemos e procuramos o nosso caminho. Jogo pra trás tudo por essa noite, pelo hoje, pelo momento que poderei sentir novamente tua pele descobrindo os caminhos do meu corpo. Quando espero poder sentir mais uma vez tua pele e a minha incessantemente queimando. Queimando em fogo ardente de desejo. Queimando nossos princípios, nossos motivos. Queimando passado, presente. Queimando e não querendo nada além do corpo do outro. Queimando e reinventando a nossa sinfonia.
Espero que você queira como eu. Espero que você pense em nós como eu penso. Espero a reciprocidade de tanta harmonia meio ao caos. Você continuava ali do meu lado. Nossos pensamentos pareciam gritar e se faziam visíveis. Por que sentir tua pele era sempre tão bom? Seria mais fácil parar a música se ele não fosse prazerosa, compassada, harmônica. Por que teu cheiro ganha meus sentidos sempre?
Nós dois lado a lado. Abraçados, unidos. Nossos carinhos trocados passeando pelo corpo do outro. Nossos beijos desnorteando, aquecendo, envolvendo. A vontade, o querer mais se fazendo incontroláveis. E seguimos assim... Meio a beijos, abraços, carinhos, muito desejo, muita pele. Seguimos assim... Nesse aproximar e afastar, aproximar, afastar, aproximar, perder controle, aproximar, sempre aproximar. Aproximar, descobrir, contemplar, enlouquecer.
E nossa sinfonia segue sem fim... Querendo o outro, passeando no outro, descobrindo o outro. Envolvendo nossos corações no mistério infinito que é a expectativa do amanhã, pelo simples motivo do amanhã sempre nos levar ao mesmo fim. Confesso... Eu não quero deixar de ouvir essa música. 

Partícula de Deus ou Carta de uma Mãe a seu Filho.


A Lucas, com amor.

Quando não temos filhos tudo parece muito fácil e distante. Achamos que as preocupações e paranóias das nossas mães é exagero e que jamais agiríamos igual. Pois bem, até que um dia você se depara com uma realidade diferente e descobre que você também vai ser mãe. Caos na terra. A primeira sensação que se tem é de impotência, principalmente quando você vai ser mãe cedo ou sem planejar.
                Impotência por imaginar como você que sempre teve preocupações banais vai ser responsável por uma vida frágil e cheia de expectativas. Ao tempo que essa impotência invade seus dias, você também se sente diferente, você se sente viva. Invadida por uma partícula de Deus, uma partícula da perfeição divina. É tudo muito estranho, pois você que pouco acredita e tem fé, agora [quase que em desespero]  sente uma necessidade de Deus na sua vida, para acreditar que não está sozinha, para acreditar que tudo vai dar certo e que o ser humano é muito pouco sem um pedaço de luz da criação divina.
                Então você readapta todos os seus hábitos rotineiros, você estranhamente muda e nem nota. Os primeiros dias que se tem a noticia você pensa e pensa e pensa em como será sua vida, o que vai mudar e se sente perdida. Então começa o pré-natal... a emoção da primeira ultrassom, o primeiro mês de vida do seu neném, alguém que vai carregar suas características, que vai aprender valores, brincadeiras e tudo mais que você repassar. Você olha pra tela e fica tentando decifrar o que aquilo tudo significa, então você se dá conta, é o meu filho! É impossível esquecer aquele dia.
                O mundo definitivamente mudou para você e não importa o que aconteça ou o que vão dizer, você vai lutar com todas as suas forças por uma vida que agora é tão dependente de você. A sua alimentação muda, seu corpo muda, seus planos mudam, você muda completamente porque tudo agora é plural. Você tem medo de cada tropeço, tenta corrigir todos os seus erros e tenta preparar o mundo para o SEU filho. Tenta conseguir o melhor meio para ele viver, as pessoas que estarão a sua volta, o que ele vai aprender. É como se você tentasse recolorir e reformar o mundo. Na tentativa de entregar ao fim de 9 meses um mundo perfeito onde ele possa ser muito, muito, muito feliz.
                Você pela primeira vez sente o que é um amor verdadeiro, sem limitações, você entende agora todo o amor que recebeu da sua mãe em cada pequeno detalhe. Os meses vão passando e você se divide entre a ansiedade de conhecer seu filho e de querer ter mais tempo para protegê-lo em si e organizar esse mundo em caos. A emoção da primeira vez que você sente seu filhote se mexer dentro de você, nossa! Você nem é capaz de acreditar... Então se dependesse da sua vontade faria ultrassons todos os dias para saber como está seu bebê, para vê-lo se mexer, para cuidar. Se você adoece o dilema para tomar um remédio é horrível, você se pergunta e pergunta milhões de vezes ao médico se ele tem MESMO certeza que não vai fazer mal nenhum ao neném, se vai ter alguma reação. Se alguém passa fumando perto, você tem vontade de matar a criatura imbecil que não notou que isso pode fazer mal ao seu filho. Bebida nem pensar. Até na hora de comer as besteiras que desejamos compulsivamente você se sente culpada. Larga seu sanduíche favorito. Seu refrigerante favorito parece veneno e bebê-lo te faz quase chorar. Você luta contra seus instintos e vícios só para cuidar do seu filho e quando come essas besteiras fica se sentindo extremamente culpada depois. Você simplesmente acha que enlouqueceu, mas na verdade você chega a uma só conclusão, tudo isso é a prova do quanto você ama infinitamente seu filho.
                Quando a noticia de que você vai ser mãe começa a ser contada aos mais próximos você fica ansiosa para saber a reação deles... você sempre quer que tenham a melhor reação, afinal é um pedaço de você que está sendo gerado. E quando alguém não tem a reação que você esperava você fica louca de raiva a ganha um novo inimigo. Oras, é o seu neném.
                Um dia, numa das várias consultas ao seu médico, você descobre o sexo do bebê, lógico que o amor é o mesmo indistintamente, mas você vai construindo  e conhecendo a cada dia seu filhote e isso te coloca em um estado superiormente interessante. Então agora que você já sabe mais uma característica dele fica sonhando e pensando em tudo. As roupinhas agora serão de um jeito, quem serão seus amigos, quem serão seus amores, você viaja tanto que imagina qual profissão ele terá, quantos filhos ele terá, você pensa tanto que a sua vida agora é ele. Mesmo que você diga que ainda tem vida própria. A sua vida própria agora é dividida com ele, é o seu amigo, o seu querido e ansiosamente esperado herdeiro. Herdeiro de todas as coisas boas que você poderá dá-lo.
                 Você fica imaginando e imaginando tantas coisas... o nome do SEU filho é quase que um enigma existencial, qual nome irá transmitir em poucas letras todos os meus desejos para ele, qual o significado será capaz de explicar o que mais quero que ele tenha, o que espero que ele seja. Você se apega aos sites de significados de nomes, tem que ser o nome mais bonito. Algo único, forte, expressivo e sempre associado a tudo de bom que você sente. É o código que ele carregará a vida inteira, é a identidade do seu filho começando a ser construída.
                Você pensa noites e dias, você sofre e se angustia para passar essa mensagem da melhor forma. Até que depois de muita pesquisa, associações mirabolantes, você dá o veredito... Então agora você já sabe como chamá-lo. E deseja que só coisas boas aconteçam na vida do seu neném tão amado. Que tudo tenha um pedaço da luz divina que invadiu sua vida. Que tudo possa fazê-lo feliz e que cada espinho que apareça na vida dele seja retirado sem dor. Deseja que ele nunca sofra e que se o sofrimento for inevitável, que essa dor seja capaz de fazê-lo crescer.  
                E cada dia você constrói algo mais para deixar a ele... afinal, tudo que você construir será o mundo dele.